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As obras apresentadas nesta exposição, pensada para os espaços da Galeria Nicoli, são um recorte parcial da produção do jovem artista italiano Glen Lasio, nascido em Milão em 1987, crescido entre Itália e EUA, onde se formou em belas artes no Art Institute de Chicago.

Trata-se em específico de dez pinturas realizadas entre 2014 e 2017 – parte no ateliê de Lasio em Milão e parte durante uma residência artística em São Paulo, que aconteceu em dezembro de 2015 nos espaços do projeto Marieta – e seis monotipos impressos em 2017 no laboratório de arte gráfica milanês Gate44, fundado e dirigido pelo artista.

O campo de pesquisa de Glen é a cidade e nela o artista identifica os objetos de sua representação. Dentro do ecossistema urbano, multidões de individualidades se atravessam, dialogam e conflitam, cada uma em busca de sua própria verdade; as cidades são testemunhas públicas das nossas vidas e histórias e é justamente nos vestígios remanescentes das interações entre os homens que reside o interesse do artista.

Os muros dos prédios e das casas são hoje provas materiais das relações entre os indivíduos: um prédio, com muros perimetrais brancos que beiram a via pública, recebe a marca colorida de um pichador, mas o desenho é rapidamente cancelado pelo síndico, que resolve cobrir apenas as letras do invasor, usando tinta cinza. Este muro simbólico, um dia branco e hoje marcado por cicatrizes cinza, carrega a narrativa das histórias das pessoas que o atravessaram e é um monumento à existência humana.

Enquanto encontram-se nas paredes da cidade, estes registros da passagem dos homens são sujeitos ao tempo e à dissolução, são frágeis e contingentes, e cada signo imagético que compõe nossa paisagem urbana tem um valor e um significado em relação ao seu contexto e à sua história. Ao transpor essas imagens das ruas à tela, Glen Lasio opera uma suspensão temporal e de juízo, removendo todas as determinações contextuais, todas as distâncias e os conflitos. No momento em que entram no espaço confinado da tela, os gestos humanos, antes subjetivos e carregados de significado, se esvaziam e passam a ter todos o mesmo valor dentro da obra e diante do artista, transformando-se em elementos objetivos, prontos para serem utilizados e ressignificados.

Ao mesmo tempo, dentro deste contexto urbano prevalentemente composto por elementos artificiais, o céu representa a prova de que existe uma realidade não-humana, algo transcendente que supera a nossa existência e com a qual o homem está constantemente em relação, colocando novamente nossa memória e passagem nesta terra em uma dimensão limitada, finita, evidentemente pouco importante diante da imensidão do não-humano.

Assim, os trabalhos que compõem esta exposição são representações emotivas da nossa paisagem urbana, completos de céus, grafites, restos de jornal, ferrugem, mármore e granito, todos removidos de seu contexto original e suspensos no universo acrítico, atemporal e desumanizado do artista, que se manifestam nos vários suportes presentes na exposição: pinturas e monotipos.

As pinturas, especialmente as de grandes dimensões, carregam intrinsecamente outro elemento fundamental para a leitura da produção de Glen Lasio, que vai além do objeto representado. Nelas, a representação é repleta de rasgos, sobreposições e acumulações, que são fruto do processo criativo que leva ao trabalho final. Observando, por exemplo, a pintura “The Necessary Imperfection”, exposta aqui em destaque, na parede ao fundo da Galeria, encontramos um céu nebuloso, atravessado por um leve traço curvo que remete ás letras de um estilo de grafite chamado “tag”, completando a composição de um poético céu urbano. Mas, ao centro desta cena, um violentíssimo traço de cinzel fere a imagem, explicitando a presença e a ação do artista dentro do seu universo imagético.

As pinturas não são somente reproduções emocionais da realidade, mas também o registro físico de um esforço para o auto-conhecimento, onde o processo de criação é tensionado por duas ações distintas e contrárias: em cima da tela branca, Lasio aplica em camadas os objetos artísticos que se sobrepõem ao longo da produção de forma lógica e racional, uma após a outra, em progressão, com o objetivo de representar aquela paisagem urbana de que falamos anteriormente. Simultaneamente, de forma instintiva e emotiva, Glen remove brutalmente inteiros extratos de tinta, expondo as camadas inferiores, ou ainda cobre todos os acúmulos com uma nova camada de tinta branca, como anulando todo o esforço feito até aquele ponto; a construção racional da pintura é constantemente ameaçada pela repentina desconstrução efetuada pelo artista. Este conflito entre duas pulsões – de um lado a vontade de construir um objeto artístico formalmente completo, do outro a de negar a possibilidade desta construção – leva o artista a um ponto de tensão psicológica e emotiva tal que a pintura se torna um ritual doloroso, catártico: ao negar constantemente seu próprio desejo, ao frustrar violentamente seus próprios esforços, o artista é capaz de transcender a si mesmo e encontrar serenidade e aceitação diante da complexidade da existência.

Giovanni Pirelli, 2017.

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