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“Nós todos somos muito propensos, eu acho, a passar pela vida de olhos fechados. Há coisas ao nosso redor e a nossos pés que nunca vemos porque nunca realmente olhamos”.
A. Graham Bell
Composta por 8 peças inéditas – entre bancos, cadeira, poltrona, espelho, armário, mesa e luminária – a exposição “Tetraedro e outras estruturas com prego” marca a primeira individual da Outra Oficina, formada em 2013 pelo designer Leo Capote e o artista plástico Marcelo Stefanovicz.
O grupo de obras aqui reunidas forma uma coleção cuja concepção se deu em 2015, data em que a dupla criou a luminária “Tetraedro”. Fruto de uma experimentação com formas geométricas montadas a partir de pregos, a peça tinha como objetivo se tornar um produto mais simples e com preço reduzido, dentro de um portfólio em que a complexidade de execução e quantidade de material costuma se sobressair.
No entanto, a partir dessa forma simples, na verdade a mais simples entre todos os poliedros, surgiu um novo desafio – como unir essas células únicas em forma de pirâmide para formar estruturas maiores e gerar novos usos?
O intenso teste de possibilidades de agrupamento dessas estruturas geométricas gerou o embrião da coleção: uma cadeira com assento e encosto em tetraedros de prego onde traços da série “Bololô Junção”, de 2014, ainda apareciam nas proporções e linguagem de acúmulo, como o pé em madeira torneada e aspecto rústico. Mas nesse modelo já se destacava um novo elemento no trabalho da dupla – uma geometria forte e ao mesmo tempo leve.
O baixo peso, a alta rigidez e a leveza visual desse sistema construtivo formado por padrões piramidais, comum à arquitetura (space frame), foram determinantes e instigaram a Outra Oficina a desenvolver mais peças com esse tema. O primeiro protótipo veio mais uma vez na forma de uma cadeira, mas dessa vez toda estruturada em tetraedros recriados com pregos e uma pintura em preto, o que uniformizou a peça e trouxe linguagem gráfica.
Essa forma de construção por tetraedros foi inicialmente desenvolvida por Alexander Graham Bell, em 1902, e fazia parte de sua pesquisa para inventar máquinas voadoras. Em busca de estruturas que unissem leveza e resistência, o inventor desenvolveu uma série de pipas com essa configuração formal Euclidiana que desafiavam a gravidade. No entanto foi no campo da arquitetura que esse sistema se sobressaiu, sendo aplicado em torres, pontes e outras inúmeras construções.
Dessa constatação posterior à criação da coleção, “pode-se entender essas peças, de certo modo, como um uso novo de uma ideia antiga”, segundo o próprio Marcelo. Mas é justamente aí que reside a força do trabalho da dupla: “na utilização da troca de funções, da fragmentação, desconstrução, aglomeração e humor para mostrar nosso modo de ver o mundo e criar”, continua Leo.
Mas esse novo trabalho vai além desse ponto. Dessa clareza geométrica, estabelecida pela repetição de um sistema, ao uso de cores neutras, que ao mesmo tempo destacam as formas e dão ares de industrialização, surge uma nova e madura linguagem. O repertório figurativo se transforma em abstração artística e o design experimental que flerta com a arte “ready-made” adquire uma narrativa mais estruturada e independente.
A esse intenso processo que mistura experiência, intuição e desejo; que mistura a linguagem artística contextual de Marcelo e a inventividade frenética de Leo, se adiciona mais uma camada formal que mantém a complexidade do trabalho, enquanto adiciona o paradoxo da leveza, da clareza, do signo.
curadoria Bruno Simões
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