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A cidade pode ser vista como a soma dos espaços privados, das micro-fronteiras individuais, que se acumulam lado a lado criando os condomínios, os quarteirões e os bairros em que habitamos. Durante o processo de expansão da cidade, o ser humano se apropria progressivamente do solo público e o delimita segundo seu desejo, cobrindo a terra com pisos de concreto, traçando linhas perimetrais, identificando assim o espaço privado, cercado, separado do espaço dos outros. Em seu terreno particular, em seu retiro, erige paredes, vigas, janelas e portas, e fecha sua estrutura com um tampo de telhas e tijolos, protegendo sua carne dos estranhos e das forças imprevisíveis da natureza, dos perigos do mundo de fora.

Observadas de um ponto de vista zenital, essas fortificações particulares se mostram como uma aglomeração – frequentemente caótica – dos materiais mais diversos, que geram geometrias orgânicas, linhas de força traçadas pelas formas dos tetos, das grades com pontas de lança, dos puxadinhos multiformes, desenhos espontâneos.

A exposição “Telha e tijolo sobre carne e concreto”, apresentada pela primeira vez nos espaços da Galeria Nicoli, representa um passo importante na trajetória e na pesquisa decenal de Sandro Akel – artista carioca, mas paulistano de adoção. Em sua produção anterior, o artista buscava se apropriar da cidade através do ato transgressor de rasgar pôsteres publicitários colados em vias públicas de metrópoles ao redor do mundo. Esses fragmentos roubados foram sucessivamente sobrepostos em camadas que eram, por sua vez, usadas como base de suas pinturas, que consistiam predominantemente de figuras humanas desenhadas com carvão e seladas sobre o papel com um estrato de parafina derretida.

Nesta sua nova fase, o artista mantém sua poética de acumulação de camadas, materiais e técnicas, e amplia o campo de ação de sua pesquisa, não limitando o ato de apropriação da cidade apenas aos materiais e objetos espalhados pelas ruas, mas estendendo-o à própria imagem urbana, capturada pelo ponto de vista privilegiado do sobrevoo. Sandro Akel constrói uma série de quinze esculturas com os tetos e terrenos da cidade de São Paulo, se apropriando dessa estética urbana baseada em acumulações.

A variedade de materiais das construções comerciais, industriais e residenciais da capital paulista oferecem o ponto de partida para a criação de suas novas obras. Dentro de um espaço delimitado de 110x80cm, Sandro sobrepõe e organiza telhas, tijolos, pontas de grades e telhados ondulados, formando uma escultura-mãe, uma representação universal da multiplicidade das formas da cidade. Essa escultura-mãe é então usada para a produção de réplicas minuciosas em material plástico translúcido, através de um elaborado processo de modelagem e fundição.

Cada réplica, por sua vez, é sobreposta a um desenho em preto-e-branco em carvão, marca essencial na produção do artista. As figuras humanas sofrem aqui uma transformação fundamental em relação aos quadros de sua primeira fase: os corpos nus, antes dinâmicos, enérgicos, prevalentemente em movimento, são aqui representados em posições de desconforto, imobilização, como prisioneiros de suas próprias angústias. Ao ser humano se alterna, nos desenhos de Sandro, a representação de um cão, guardião simbólico do espaço privado, último protetor da carne de seu dono.

O desenho, coberto pela réplica translucida, é por fim moldado em uma estrutura em ferro, fechando a obra.

A escultura final – composta pelos três elementos: réplica da escultura mãe, desenho e moldura – apresenta o paradoxo de um corpo que se circunda voluntariamente de limites físicos que, construídos com a intenção de proteger dos agentes externos, à procura de um sentimento de segurança, terminam por aprisiona-lo. É um monumento potente ao espaço urbano e uma representação feroz de nossas contradições nos modos de ocupar e habitar a cidade.

Giovanni Pirelli, 2017.

 

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