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O psicanalista e filósofo francês Jacques Lacan acreditava que poderíamos até saber o que dissemos, mas nunca o que o outro escutou. Por maior que seja a empatia, é inevitável a permanência de um véu de incomunicabilidade entre os seres humanos. Não sabemos realmente como as pessoas com quem nos relacionamos estão se sentindo, o que pensam ou como recebem e elaboram as informações que tentamos passar de um para o outro. Diante deste raciocínio, podemos nos convencer de que, afinal, a solidão é a característica essencial da existência, que vivemos em um universo incompreensível, regido por caos e casualidade, onde qualquer busca por comunhão entre os seres humanos – ou tudo o que habita o cosmos – é inútil e contingente.

Os trabalhos da artista argentina Marina Zumi em Entrega, apresentam uma visão diferente. Marina busca o ponto de encontro entre os seres fora da linguagem, uma outra dimensão que possa unir a todos nós. A nossa contemporaneidade é marcada pelos avanços nas descobertas científicas, favorecidos por uma impressionante evolução nas tecnologias disponíveis para a observação dos fenômenos. Temos hoje a capacidade de observar a vastidão do espaço com impressionante grau de precisão a distâncias inimagináveis poucos anos atrás, ao mesmo tempo, temos maior entendimento das minúsculas partículas que compõem o universo e nós mesmos. Os estudos de neurociência nos levam a compreender mais a fundo os mecanismos que regulam o funcionamento de nosso cérebro e aplicamos esses modelos de conexão neural para aprimorar a construção de inteligências artificiais. Vivemos em uma época em que as certezas que derivam desses novos conhecimentos aumentam as nossas incertezas em relação a nós mesmos e abrem a possibilidade de nos enxergar projetados em um quadro maior.

Em seus trabalhos, Zumi busca representar a visão de que pertencemos a algo que transcende nossa condição humana e nos une ao resto do cosmos. O pano de fundo das obras, onde o preto predomina, é construído com pinceladas enérgicas, irregulares, que ocupam toda a superfície da tela, criando uma textura com movimentos inconstantes e acúmulos pontuais de tinta. Esse traço é comum a todos os trabalhos de Marina – o mundo de sua representação, a base que sustenta a sua criação. Dentro desse espaço dinâmico, vazio, a artista posiciona formas geométricas de grande equilíbrio, que representam simbolicamente as forças que regulam e conferem unidade a este seu universo. A vida é representada na forma natural de um dente de leão, exibido sempre em movimento. Um tipo de planta que evoluiu desenvolvendo uma das estratégias de reprodução mais eficazes dentre os organismos complexos: em sua primeira fase de vida, cresce em altura, para se erguer acima dos obstáculos naturais ao seu redor; depois de florescer, suas sementes – não protegidas por pétalas ou frutos – ficam expostas às forças naturais e, eventualmente, se entregam ao vento, para nascer em outro local. O inteiro ciclo de vida da espécie depende desse seu ato de entrega ao mundo. Para a artista, esse gesto significa compreender que todos participamos de uma rede. Ter consciência de que não temos controle sobre a existência, e acreditar que as energias que nos guiam, nos levarão adiante.

A arte se expressa e deve ser compreendida no mundo dos símbolos. Cabe a cada um de nós encontrar e transpor seu significado para o nosso cotidiano. Ao montar essa exposição, sinto que estamos passando por grandes transformações, vivemos um momento de incerteza onde os fundamentos sociais, políticos e éticos construídos na segunda metade do século passado estão mostrando fragilidades. Marina parece nos dizer que talvez seja o caso de abraçar essa incerteza e reconsiderar nossa postura diante do mundo.

Giovanni Pirelli, 2016.

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